Archive for Agosto 2011

Passado Dependente

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O vento assobiava sem fim, o sol brilhava para além do horizonte, e Vera fechava-se em casa, dentro daquelas quatro paredes, dentro daquela casa escura, sem um único ruído. Vera, não andava, teve um acidente há uns anos atrás. O seu dia era visto por aquela janela, onde o sol não passava aquele limite, e onde esse mesmo já descascava a tinta da mesma janela. Vera habitava perto de uma escola primária, e olhava todos os dias para os sorrisos daquelas crianças, e acima de tudo, para o andar daquelas mães, que todos os dias pelas manhãs frias, os traziam para a escola.
Os dias foram-se passando, e o sol foi brilhando cada vez mais intensamente naquela janela já descascada. Certo dia, uma funcionária daquela escola primária notou que já há uns longos dias, aquela senhora estava sempre a olhar para aquele pequeno pátio pertencente à escola primária. Decidiu assim, após a sua hora de trabalho, ir falar com aquela senhora, talvez se passasse algo.
Tocou à campainha uma vez, e nada de novo surgiu. Decidiu, com um pouco de receio, tocar uma segunda vez, talvez a senhora não tivesse ouvido. Até que…
- Quem é? – Perguntou a senhora.
- É a Rita. Sou funcionária da escola primária em frente à sua casa. Posso entrar?
- Hum… Empurre. – E assim lhe deu acesso para sua casa.
Rita subiu aquelas valentes escadas que pareciam não ter fim. Até que se deparou com a esperada porta. Tocou à campainha, e aguardou. Logo de seguida, Vera abriu-lhe a porta, com um pouco de receio e dúvida do que é que a funcionária iria lá fazer.
 - Entre… - Disse Vera.
Rita olhou para o estado de Vera, e ficou pensativa… Talvez seria aquela a razão pela qual Vera estaria sempre na janela?
- Obrigado, antes de mais. Eu tenho reparado que a senhora está sempre de olhos postos no pátio da nossa escola. Passa-se alguma coisa? Não é que eu tenha algo contra…
- Não, não se passa nada. – Interrompendo Rita.
- Mas não há uma hora em que você não esteja com os olhos postos naquele pátio. Não é por mal que eu digo isto, apenas estranheza… Minha e das minhas colegas.
- É o seguinte, vou-lhe contar a minha história…
Vera não teve preconceitos em contar a sua triste história, o seu triste passado, e a conversa foi-se desenrolando, e a cada palavra que dizia, Rita derramava uma lágrima que era logo limpa pela sua mão, para não incomodar Vera.
- Você tem uma história completamente triste… O que posso fazer por si?
- Não há nada a fazer, minha amiga. Apenas esperar que São Pedro me chame. 
- Não diga isso. Vai ver que ainda será feliz, acredite em mim!
- Não posso acreditar… Como os novos dizem, já estou pronta “para ir para a cova”.
A conversa continuou, ainda mais lágrimas foram derramadas, e cada palavra ficava marcada no coração de Rita. O dia anoiteceu, Rita tinha tarefas em casa a cumprir… Despediu-se de Vera, e disse:
- Até amanhã. Seja feliz.
A noite passou, Rita não conseguiu parar de pensar no triste passado de Vera. Era hora dos pais trazerem as crianças, e mal Rita chegou ao seu posto de trabalho, já Vera estava na janela. Vera sorriu, e Rita acabou por acenar largando um sorriso forte. A funcionária da escola decidiu partilhar a história de Vera com as colegas, visto que também se preocupavam com o facto de ela estar sempre na janela e a olhar para o pátio da escola.
De repente, uma ideia surgiu! Gisela, outra funcionária da mesma escola, teve a brilhante ideia de convidar Vera para partilhar a sua história com os alunos, para todas as crianças daquela escola. Nesse mesmo dia, já pela tardinha, Rita e Gisela foram a casa de Vera, e contaram-lhe a ideia. Tocaram à campainha.
- Quem é? – Perguntou a senhora.
- É a Rita, a funcionária da escola.
- Ahh, sim. Empurre.
E assim entraram no prédio das famosas escadas sem fim, onde Vera vivia. Chegaram e a porta já estava aberta.
- Posso? – Perguntou Rita.
- Sim, claro. Entre. – Disse ela, à beira da janela. – Onde é que você está?
- Estou aqui, na sala. Junto à janela. – Respondeu Vera.
- Ah, está aqui. Olhe, esta rapariga é outra funcionária da escola, e teve uma ideia.
-Ah? Que ideia? – Perguntou Vera, um pouco duvidosa.
- Bem, é assim… Lá na escola, as nossas crianças são muito calmas…
- Eu sei, eu sei. Eu vejo da janela. – Interrompeu Vera.
- Pois, e porque é que só vê da janela? Não as quer ver de perto? Estou a convidá-la, em nome da escola, para um dia destes, vir partilhar com as nossas crianças, a sua história, apesar de triste, é um passado jamais esquecido.
- Oh… - Deixando escorrer algumas lágrimas pelo rosto abaixo. – É muito bonito da vossa parte, mas…
- Mas não sabe o que dizer às nossas crianças? – Interrompendo. – Sabe sim. Conta-lhes o seu passado, a suas tristes memórias. Vai sentir-se muito melhor, acredite.
- Pronto, eu aceito. – Largando um sorriso. – Quando é que dá jeito lá ir? É que eu preciso que alguém me venha buscar, porque eu assim, não consigo descer as escadas, e aqui não tem elevador.
- Pode ser amanhã? – Perguntou Gisela.
- Hum, parece-me bem. Às 10h?
- Perfeito. Até amanhã, então.
Falaram mais um pouco, e desceram. Gisela e Rita tinham na mente que aquele dia, seria memorável para todos.
A noite passou, tornando o dia, um pouco chuvoso. Mas não seria tal o motivo para Vera não ir à escola primária. Vera ansiava a hora das funcionárias a virem buscar. Tomou o seu leite com café e comeu um pão. O tempo foi passando, Vera ia pensando no que haveria de dizer.
São 10h, ainda mal o ponto dos segundos tinha chegado ao cimo, para marcar tal hora, Rita e Gisela chegaram, prontas para ajudarem Vera a descer. Estenderam os braços, e fizeram uma espécie de banco, para descer até lá abaixo, trazendo a sua maior inimiga em cima de si, a cadeira de rodas.
Mal Vera entrou pela biblioteca da escola, sobre aquelas duas rodas, com a força das suas mãos, as crianças aplaudiram, de uma forma de carinho receptivo. Já começou mal, Vera já escorria lágrimas, e nem se quer tinha ainda começado. As crianças sentaram-se sobre as suas almofadas coloridas, e Vera em frente, como sempre, em cima da sua maior inimiga.
Começou então.
- Olá a todos. O meu nome é Vera, escusam de saber a minha idade, porque já se conta pelas rugas que me marcam a cara. Vivo aqui mesmo em frente, e tenho sempre os olhos postos no pátio do vosso recreio. Estou em cima desta cadeira de rodas, a quem eu chamo de minha maior inimiga. Há uns anos para cá, tive um acidente, fui atropelada. Ia eu, a atravessar uma estrada, onde não havia passadeira, e de repente um carro embate em mim, com uma velocidade estrondosa. Fiquei eu, ali estendida no chão. Ia ter com as pessoas mais importantes da minha vida, o meu marido e as minhas filhas, era a última oportunidade que eles me deram, porque já muitos problemas vinham de trás. Após o carro embater em mim, só me lembro de acordar deitada numa maca, num hospital, e ouvir o som daquela máquina que todos nós vemos nos filmes, que faz “Piiiiiii Piiiiiii Piiiiiii”. O médico não tinha a melhor notícia para mim, olhou-me com ar triste, coisa que não era normal por parte de uma equipa hospitalar. – As crianças já limpavam as lágrimas, devido à história de Vera, não era de muitos sorrisos. – Os meus falecidos pais, deram-me aquela notícia, directamente, o que me chocou ainda mais. Após saber que, não poderia mais correr, não poderia mais andar de pé, não podia chegar a determinadas coisas… Naquele momento, ainda pedi a Deus que me levasse para o lado dele, mas nenhuma resposta chegou até hoje. Aquela era a última oportunidade que eu tinha de ver o meu ex-marido e as minhas filhas, mas como eu faltei ao encontro, não por querer mas por causa do acidente, até ao dia de hoje numa mais me contactaram, nem uma simples mensagem. De hoje em dia, passo a vida na janela, a olhar para esta escola, onde os vossos papás e mamãs vos trazem, com as suas próprias pernas, e não sobre uma coisa como esta. E a minha vida é esta… Agora estou à espera que o céu me abra a porta. – Quando ela disse aquilo, todas as crianças entenderam… Levantaram-se e foram abraçar-se a Vera, que já chorava intensamente.
Vera, ao sair, foi aplaudida mais uma vez, devido à coragem e força que teve até ao dia de hoje. Quando chegou lá a cima, ao seu doce lar, com a ajuda das duas funcionárias, dirigiu-se à janela, e viu uma coisa inesperada: Todas as crianças da escola primária formaram a palavra “Vera” dentro de um cordão humano.
- Ai, não acredito… - Desatou a chorar, porque nunca esperava tal surpresa. Olhou mais uma vez, e com a mão acenou, enxugando as lágrimas com a outra mão.
Eles deixaram voar vários balões, de várias cores. Realmente foi um dia inesquecível, vai ficar para sempre na memória de todos.
Os dias foram passando, e cada criança que chegasse à escola, acenava sempre para Vera, que estava sempre naquela janela já sem cor. A cada dia que passava, Rita e Gisela traziam-lhe trabalhos feitos pelos alunos… Desde desenhos, a montagens, a frases, entre muitas outras coisas. Vera ganhou cada vez mais coragem para seguir em frente. Até que o pedido que ela teria feito há um tempo atrás, foi atendido. Vera, faleceu… Todas as crianças olhavam para aquela janela, como o costume, e não viam ninguém do outro lado. Tiveram a ideia de formar a palavra “sempre” dentro de um cordão humano, porque Vera, nunca foi e nunca será esquecida na vida de todos os presentes naquele dia na biblioteca.

Sem querer, mas aconteceu.

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Era uma linda tarde, o sol brilhava incondicionalmente e compulsivamente. Inês, uma rapariga de dezasseis anos, decidiu ir passear, sair de casa, arejar as ideias que lhe davam a volta à cabeça, por causa do falecimento da sua mãe, há pouco tempo atrás. Caminhava, serenamente, até que chegou à praia. Estava tanta gente, ouvia tantas gargalhadas, e ela apenas, com os seus headphones nos ouvidos, sentia a música:

« Por aqui fico
Na tristeza caminho só
Sem pensar no que aprendi
Por aqui fico
O tempo pára mas logo foge
Estas tão perto e tão longe
Se me ouvisses um grito não chega
Óh! Não chega »

As pessoas, que olhavam para ela, apenas se riam. Ela vestia-se com roupa preta, botas pretas e o seu cabelo, voava com o vento que lhe apenas indicava para voltar atrás.
Ao fundo, reparou. Estava muita gente, a ver algo, decidiu ir ver também. Era rapazes e raparigas a jogar futebol praia. Ela, apenas ficou lá por alguns minutos. Quando se ia embora, daquele sítio, um rapaz, sem querer, acertou-lhe com a bola. Ela caiu, e ele veio logo ter com ela.
- Desculpa, foi sem querer. Estás bem?
Aquela preocupação dele, despertou em Inês, um sentimento que já estava lá no fundo, há muito tempo. Talvez ela estivesse a fazer confusão.
- Sim, está tudo bem. Não faz mal.
Ele, tinha-lhe danificado o leitor de música, e ofereceu-se:
- Queres que te compre um leitor novo? É que parece-me que o estraguei.
- Não, não é preciso. Obrigada.
Ela, saiu dali a correr, e sentou-se à beira mar, numa parte que não tinha ninguém… Apenas ela, e só ela. Começou a pensar no que aconteceu, naquele rapaz que lhe despertou um sentimento, o sentimento chamado amor.
Decidiu voltar para casa, o dia já estava a escurecer, e não era do melhor agrado do pai, chegar a casa tarde. Foi para casa, pela beira-mar, a ouvir o som das ondas, os segredos que elas lhe transmitiam e partilhavam.
Pelo caminho, de volta a casa, passou pelo rapaz, o rapaz que lhe acertou com a bola sem querer, o rapaz que lhe despertou um sentimento. Ambos olharam um para o outro, sorriram com um olhar amoroso, e seguiram o seu caminho.
Chegou a casa, tomou um banho, e deitou-se em cima da cama. Ficou a olhar para o tecto, a lembrar-se do rapaz da bola, daquele olhar amoroso, e ficou a imaginar um futuro… Mas logo de repente, a sua irmã mais nova, ao vê-la sorrir tanto para o tecto, virou-lhe um copo de água em cima.
- Estás bem, Inês?! – Perguntou a irmã mais nova, Liliana.
- Eu estou bem, mas qual foi a tua de virares água por cima de mim? Estás tolinha?
- Estavas a rir-te para o tecto, pensei que estavas maluca. – Disse Liliana, a rir-se.
- Já não se pode imaginar um futuro? Também não tenho direito a imaginar um final feliz, para mim própria? Baza daqui, mas é.
- Apenas te vim chamar para jantar, porra. O pai está à espera.
- Já vou! – Respondeu Inês, toda enervada com a situação.
Entretanto, os três jantaram. Inês decidiu sair novamente, talvez desse de caras com o rapaz que lhe despertou um sentimento que estava lá no fundo há algum tempo… 
Inês, foi passear a noite toda, não encontrou o rapaz. Ficou um pouco triste. Chegou a casa, e foi dormir.
No dia seguinte, ao acordar, um belo e longo sorriso esboçou-se nos lábios dela, era inexplicável. Seria hoje que ela o iria encontrar? Era o que ela pensava…
Tomou o seu pequeno-almoço, um pouco de leite com cereais, e saiu... Pôs-se a ouvir música, tinha tirado o leitor à irmã mais nova. Ouviu mais uma música, e olhou para a fotografia da sua falecida mãe, que estava na sua carteira, de seguida, ao tirar os olhos da fotografia, cruza-se, frente-a-frente com o rapaz. Ela estava a chorar… Ele, apenas abraçou-a, sem dizerem uma única palavra. Ele percebeu o que se passava.
- Lamento. – Disse ele.
- Já lá vão 3 meses e meio, mas custa… - Disse ela, ao largar mais uma lágrima.
- Pois, acredito. Como te chamas, já agora?
- Inês, e tu?
- Gonçalo. Tenho de te confessar uma coisa…
- Que lindo nome. A sério? Eu também.
- Obrigado. Diz tu primeiro, então.
- Não, diz tu, anda lá. – Um sorriso já se notava.
- Diz tu, vá… Primeiro as senhoras. – E uns risos soltaram-se.
- Pronto, está bem, eu digo.
- Força. – Ansioso pelo que ela ia dizer, calculava que talvez fosse o mesmo que ele queria dizer.
- Eu… - Coçou a cabeça. – Eu… Eu desde o primeiro momento que te vi, não consigo deixar de pensar em ti. Pronto, está dito. – Meteu as mãos à frente da cara, porque estava um pouco corada.
- A sério? Eu… Eu também te queria dizer o mesmo.
Ela começou-se a rir, tirou as mãos da frente da cara, e deram um beijo.
Após isso, Gonçalo pegou nela, e brincaram à beira-mar, porque ele tinha noção que ela precisava de se animar… Enquanto ele lhe pegava ao colo, ela sussurrou-lhe: “Eu amo-te”, e ele, logo de seguida respondeu: “Eu também”.

P.S.: O meu post anterior, dizia que eliminar o blog, né? 
Mas, deram-me a volta, e pediram-me para continuar a postar. Assim o farei.

Uma vida infinita

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Francisca, era uma mulher fantástica. Era enérgica, tinha força para dar e vender. Rodrigo, o seu filho, achava a sua mãe, a melhor pessoa do mundo, tanto pela sua força e garra de encarar a vida, como a sua energia para agir em qualquer coisa que fosse. Um dia, soube que tinha de ser operada ao coração, infelizmente havia problemas com esse mesmo órgão. Não estava minimamente preocupada com os resultados dessa mesma operação, pois ela acreditava em tudo, acredita que ia recuperar com “uma perna às costas”. Francisca, foi operada… Correu tudo bem. Foi-lhe dada alta, e foi de caminho para casa. Tinha de repousar, devido à operação que foi, mas Francisca, adorava trabalhar, era muito energética. Na noite, desse dia que lhe foi dada alta, Francisca, devido a não repousar após a operação, teve um AVC de último grau, que infelizmente lhe causou uma paralisia total.
Rodrigo, o seu filho, já acreditava que a sua mãe não iria sobreviver. Decidiu ir para casa, e esperar que o hospital lhe ligasse com novidades (boas de preferência).
Chegou a casa, foi para o quarto da sua mãe… Deitou-se em cima da cama, e apenas se recordou de momentos passados. Desde a sua infância, aquelas brincadeiras de mãe e filho, aqueles passeios pela cidade, desde a sua adolescência, aquelas conversas de mais “crescidos”, entre muitos outros momentos que guarda no seu coração com muito orgulho.
Francisca, entrou em estado de coma… O problema era mesmo muito grave, e não apresentava resultados positivos.
(Passaram duas semanas)
O estado de Francisca, ao longo destas duas semanas, era crítico. Rodrigo já não estava bem, já estava a entrar numa depressão. Decidiu então, ausentar-se por uns tempos, pois precisava de ter noção do que aconteceu, e prevenir-se do que podia acontecer.
(Passaram dois meses)
Rodrigo, chegou a casa da sua mãe. Ainda não tinha resultados, ainda não tinha ido ao hospital. Passados vinte minutos, ouve a garagem a abrir… Achou estranho, e foi ver o que se passava. Francisca, estava a chegar de carro. Mal ela abriu a porta do carro, e pôs o primeiro pé no chão, Rodrigo, emocionou-se, e caiu, sem mais nem menos, de joelhos naquela relva verde cuidada pela sua mãe, em frente a ela. A alegria de ambos foi tanta, que Francisca correu para ele, abraçou-o e disse-lhe: “Estou aqui, meu amor, estou aqui.”.
Rodrigo, ao ouvir a pronúncia da sua mãe, aquela essência que predominava no corpo dela, abraçou-a mais uma vez, e disse-lhe: “Eu não estou a acreditar… Minha mãe, eu amo-a.”.

Nunca penses no fim de algo. Vive o teu dia-a-dia sem preocupações.